segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Oeste

 O sol brilha por entre o telheiro

Os gatos agitam-se à procura de carinho

As alfaias

Inertes

Procuram o melhor ângulo para se aquecerem

As mantas

Aconchegam os cadeirões para os proteger do frio

Nós 

Cansados do bulício da cidade

Fomos à procura de calma

Os ossos

No seu incessante movimento

Queixam -se da humidade 

Regressámos 

Contentes com a vida 

A sentir

Que cada momento

É nosso


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Hoje

 Deixem -me levitar no sonho e ser mentira

Quando acordar a tempestade terá passado


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Chuva

Tamborilam pingos na janela

Abençoada chuva

Sonho de Inverno

O vento agita a vidraça 

Teimosamente 

E eu fecho-me nos lençóis 

À espera que as barragens encham


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Dias de Algarve

A cor da terra lembra-me a torta de cenoura em casa de minha mãe em dias de pouco fazer

O sol tórrido das tardes de Verão lembra-me o calor do amor em dias de alguma agitação 

O jardim do hotel lembra-me o cheiro a alfazema emanado dos cabelos grisalhos de meu pai 

A azáfama do restaurante lembra-me a salsa e coentros na açorda em dias de peixe frito

Estes e outros momentos fazem a minha vida feliz



Subida

Subo a escadaria

Relembro os degraus da minha infância 

Alcançarei o céu

À sombra

Dos jardins da memória 


terça-feira, 6 de setembro de 2022

O mar de Albufeira

Hoje molhei os pés na água do mar. A sua voz falou-me ao coração. Os salpicos tocaram-me as pernas. Carícias a escapar aos olhares alheios. 

Foram dois anos a sonhar com o regresso. A acordar com manhãs lentas de Verão,  a sonhar com a calmaria deste mar imenso, de um azul fascínio. 

A recordar anos e anos e anos de grande alegria, de muita diversão e sentimento de liberdade que aqui se vive. Hoje tive o o privilégio de o olhar de novo, de o sentir pulsar, de ouvir o seu marulhar inebriante.

Ontem foi uma viagem cansativa. Muito.

Hoje é o desfrutar, tanto quanto possível, desta cumplicidade ardente. Aproveitar estes momentos num local que me dá as boas vindas.  Sentir os cantos de outrora que a modernidade não apaga da memória. Caminhar na areia fina e dourada como se a  massagem fosse só para mim. Enfiar os pés nas sandálias sem os limpar e ouvir os ralhos do pai - olha que me sujas o carro! Ser outra vez menina.

A vida é uma só.  Adoçá-la é o meu propósito.


o. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Apanha da pera

 Ritmicamente apanham as peras

Na sesta desfazem os sonhos da noite

Há sol no caminho

As árvores pingam gotas de esperança 

No ar

A fusão das cores e aromas assinalam a hora do dia

No serão 

Digerem as palavras não ditas

Os olhares brejeiros da ceia

Adoçam a compota acabada de fazer

Bom apetite


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Escassez de água

Corre água pela vereda

Cristalina  fria  pura

Espera que a mão do caminheiro

A procure

A acaricie

A beba

Corre água pela vereda

Cristalina  fria  pura

Escuto o seu cantar

Sons que vêm das fragas

Notas fora da pauta

Corre água pela vereda 

Cristalina  fria  pura

Atrevo-me

Bebo

Salpico o rosto

Sinto o seu aroma e frescura

É Verão 

A água escasseia


terça-feira, 9 de agosto de 2022

Chaminé da Fábrica

 Quando a chaminé fumegava

Não sabia o que dizer

Dos pedaços de amor esquecidos no restolho 

E das noites fugidias de Verão 

Onde o orvalho me beijava a nuca 

Como música a crescer na madrugada


domingo, 31 de julho de 2022

Festas de Nossa Senhora da Boa Viagem - Peniche

 Sentada na pedra

O calor derrete-me as ideias

O ruído dos feirantes abafa as palavras

A imponência do forte

Aos quadradinhos 

Por entre as barracas de farturas

Parece banda desenhada

Amarrotada  

Gasta 

Suja

Tal como as arrumações 

Em casa de minha mãe 


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Alto da Ajuda

No alto de Lisboa 

Minhas horas de insónia voam

Sem vertigens

Nem mácula

Nem rumo

Nem distância 

Nómadas

Em silêncio 


sábado, 18 de junho de 2022

Sonho

 O sono assalta-me

Rasga-me a camisa de noite

Leva-me para as nuvens

Dança comigo o Bolero de Ravel

Freneticamente 

Até que

O galo canta

O cão ladra

As borboletas pousam

Os pássaros pipilam

O dia acorda

Puxa-me pela mão

Remenda-me a camisa

Calça-me os chinelos  

Sem Ravel

Sem sol

Sem remorsos 



quarta-feira, 15 de junho de 2022

Fim de tarde no Oeste

 Chove 

O cinzento do céu anuncia trovoada

O sapo pula

O gato esconde-se debaixo da magnólia 

Nós 

Amigos da natureza 

Apanhamos os pingos 

Cristais da Baviera

Longe

No ar empoeirado 

Ouvem-se trovões 

Os pássaros recolhem-se

O carro

Acabado de lavar 

Fica de novo sujo


Maravilhoso fim de tarde no Oeste











quarta-feira, 1 de junho de 2022

Viennetta

Poucas palavras

Moram secretas dentro de mim

Até se derreter o prazer do chocolate 

Que dança na minha boca


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Se eu fosse ...

Se eu fosse criança 

Sentia o paladar da terra 

O aroma das estevas

A carícia do sol

O beijo dos eucaliptos

Se eu fosse criança 

Brincava às escondidas

Com a felicidade 

Saltava o muro do quintal

À tua procura

E sorria à saudade

Lavada na água da fonte



quinta-feira, 7 de abril de 2022

Outono sombrio

Chuvisca

Num Outono sombrio

O cheiro a terra molhada inebria as palavras 

Deixadas ao acaso

Gastas

Assimétricas 

Uma réstia de sol

Dá-lhes rumo incerto

No ímpeto da escrita

Cavam sulcos em minhas mãos 

À espera que o tempo os remende

Chuvisca

Num Outono sombrio 

Até chegar o Inverno

E a poesia não ser em vão 




quinta-feira, 31 de março de 2022

Alfazema

Tenho um poema entre dedos

Mas os verbos não conjugam

Tenho canções entre lábios 

Mas as notas não entoam

Tenho gaivotas no sonho

Mas o vento agita o mar

Tenho cheiro a alfazema

Mas os meus olhos choram


terça-feira, 22 de março de 2022

Ontem

Olho por entre os ramos 

Vejo

A esperança de teus olhos

A Primavera de tuas mãos 

No clique do sonho

Olho por entre os ramos

Por detrás 

Crianças jogam à bola

Entram e saem de cena

Indiferentes à nossa performance 

Olho por entre os ramos

Vejo

Novos e velhos

Correm atrás do tempo

Sem prazo a cumprir



domingo, 6 de março de 2022

Lantana

 Na lantana esmaecida

Há luz

Explosão 

Glória 

Música 

Natureza

Amor

Renovação 

Na lantana esmaecida

Há novo caminho 

De paz



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Dia a Dia

 Estremunhada 

Olho de esguelha para o despertador

Tomo banho

Lavo os pecados pendentes

O dia começa sem mácula 


Cozinho pedaços de sonho 

Num misto de mau e bom humor

Coloco-os na terrina 

À espera do julgamento digestivo


Varro com as mãos enregeladas 

Raspas de vida caídas no chão 

 Sujas e dispersas

Ofereço-as ao lixo com desprezo


Lavo e estendo roupa

No ondular do vento perde-se o  cheiro a rosas

Que derramo no corpo 

Para entreter  a doença 


Volto a comer

A cozinhar

A dormir

A ler

A escrever

Finjo que o principal obstáculo do dia

... o tempo  ...

Passa depressa


À noite

O sono aumenta

Não vejo televisão 

Não cozinho

Não estendo roupa 

Não tomo banho

Embrulhada em telefonemas

Adormeço e sonho



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Talvez

 As mãos frias

Não seguram a caneta

Rabisco linhas de vida

Enleadas nos males do mundo

E

Quase seca

Interrompe-me a escrita

Amanhã chove 

A temperatura aumenta

Talvez minhas mãos escrevam

Algo que te apaixone 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Rodopio


Rodopio

Horas

Dias

Semanas

Meses

O sonho avança 

Finjo não sentir a aspereza do vento

Qual vela de moinho

Em movimento 

Até à rotação  final

Vou moendo

A inquietação da vida