quinta-feira, 18 de abril de 2019

Mãe


Minha mãe
Já não me saciam
Os momentos que vou a casa
Nem relembro
Memórias  do que foste
Numa catedral de amor
Agora submersa em silêncio

Resta-me esperar
Que um dia de Primavera
Leve meus lábios a beijar teu rosto
E minhas mãos a acariciar teus olhos

Nesse amendoado
Gasto pelo esforço dos anos
Afundam-se preguiçosamente
Todas as palavras que nunca te disse

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Adormeço

Chove lá fora
O vento assobia
O frio corta os lábios
No cieiro disfarçado

Cá dentro
A lareira acesa
As paredes com rachas
Enchem-se de calor

Em cima da mesa
Indiferente
Miguel Torga vê a criação do mundo
Com a patine dos anos

Fecho o portátil
Embrulho-me nas labaredas
Em dança de ventre
Sensual
Apetecida

Os olhos ensonados
Meio abertos meio fechados
Anseiam a visita do gato
Em passadas largas no telhado
Junto ao fumeiro

Adormeço

terça-feira, 26 de março de 2019

O Bolinhas ...

Tinha um carro novinho em folha, que me fora oferecido pelos  meus pais, num dia de aniversário.
Branco, de sua matrícula  DL-70-77, de sua marca Honda, de seu tamanho pequeno.
Grande apenas nos segredos, risos e conversas que guardava. Para si.
Fazia as delícias das minhas amigas e as minhas próprias.
Éramos íntimos, confidentes. Éramos unha com carne!
Com gasolina que hoje dizemos à  boca cheia muito barata (2$50/litro), enchia o depósito que dava para a semana e muita folia no seu fim ...
Passeávamos muito, engolíamos quilómetros, digeríamos locais.
Andávamos por terras nunca dantes desbravadas.
Amantes da viagem,  corríamos " Seca e Meca ".
Sempre com o Bolinhas cheio.
Eu e as minhas amigas soletrávamos, deliciadas, o nome de cada aldeia,  de cada cidade, de cada canto.
Parávamos a meio caminho, quando o calor era intenso, para beber algumas gotas de água doce e potável,  que caíam de uma fonte qualquer, que a idade tornara amarga.
Os corpos jovens, a vontade grande e um carro nas mãos,  dava-nos o privilégio  de fazer amizades no ímpeto do momento.
Conheci gentes que me saciaram a curiosidade com histórias de primaveras passadas, sonhos de futuro inatíngivel, de adultério inimaginável, de naufrágios à vista de terra,  de lobisomens à  passagem da meia-noite  ...
Histórias de tudo e de nada, onde (por vezes) o atraso atávico, proporcionava a entrega de bandeja de um segredo que lhes estava corroendo a alma.
Foi assim durante anos.
Ai se o meu carro falasse, tinha muito que contar!
Porém,  foi-se um belo dia o meu Bolinhas para Guimarães.
Em troca por um carro melhor, mais potente, mais confortável.
Chegou pronta e rapidamente o carro novo.
Imponente à  saida do stand, brilhante, lindo por sinal.
Mas não tinha a alma do anterior.
Nem paciência para me ouvir.
Nem cofre para guardar as minhas confidências.
Só a gasolina continuava na mesma, barata.
Eu e as minhas amigas continuávamos também a passear, mas nada era igual.
Nem a cor, nem a matrícula, nem o tamanho.
Era maior, confortável e mais potente.
De sua cor vermelha, dava nas vistas, mas era assexuado.
Não nos ligava patavina, apenas nos transportava.
Na incerteza de o querer, no medo de o perder,  habituei-me a não lhe contar as minhas aventuras.
Estacionava-o à distância de qualquer tipo de olhar, curioso ou histérico.
Paria sózinha a minha exuberância e as minhas alegrias espraiavam-se cada vez mais longe.
O meu carro já não era, mais, o meu confidente e amigo.
Era tão sómente o meu espaço e comodidade no transporte.
As minhas amigas foram deixando comigo apenas os contornos de seus corpos e risos.
E eu, fiquei com todos os anjos e demónios, que se eternizam no arrebatamento da vida!


terça-feira, 12 de março de 2019

Tristeza

Triste é

Não ter família
Nem realização
Não ter amigos
Nem poder sonhar
Não ter paixão
Nem arrebatamento
Não ser criança
Nem saber brincar
Não ter um livro
Nem saber escrever
Não ter amante
Nem ser adúltero
Não ter orgasmo
Nem sentir a posse
Não ter prazer
Nem rasgar o céu
Não ter pecado
Nem confissão
Não ter paleta
Nem ousar pintar
Não ter liberdade
Nem querer voar
Não ser papoila
Nem querer gritar

Triste é
Não ser feliz
Nem sequer tentar

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Sou ...

Voo alto
No torpor do silêncio
Bato asas
Estremeço na luz
Sou mariposa azul
Filigrana
Bruxa
Barbie
Monarca
À procura de trono para reinar

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Despertar

Morro todos os dias
Um pouco
Na noite escura
Embrulhada no sono
Que sai da mesa de cabeceira

Procuro-te
Em vão

No amplexo do teu corpo
Na euforia do sonho
Na sensualidade do calor
Na sombra da tua ausência
No despertar da manhã