quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Revelação

Aparece
Repentina e naturalmente na minha vida

Não é mel
Nem sol
Nem abraço
Nem água límpida de riacho

É oportunidade para amadurecer
Conhecer a própria essência
Construir a parte do mundo
Que falta ser amada

Hoje
Sou única

Ardo no desejo
De transformar um dia escuro
Numa noite insensata de beijos

A indiferença
Fica na mesa de cabeceira
O corpo na gaveta
O ventre na frincha da janela
O desejo aos pés da cama

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Amor Virtual

Numa conversa telefónica entre amigas surge, inesperadamente, um cruzamento de linhas.
Três pessoas falavam, entrecruzadamente, em uníssono.
No entanto, sobressaía uma voz masculina.
Voz rouca, quente.
Apaixonante, madura.
Diria mesmo, envolvente ao minuto.
Palavras, frases, risos. Muitos.
Trocadas, agora, entre duas pessoas.
Sómente Ele e Ela.
Antevia-se a possibilidade de um encontro, que podia vir a ser arrebatador.
Ele, professor universitário, africano, solitário.
Solicitava apenas um abraço.
Ardia no desejo de conhecer a rapariga  que tinha descoberto  no outro lado da linha.
Ela, jovem, com a experiência própria da idade e da época.
Fervia no ímpeto de o poder conhecer pessoalmente.
Sucediam-se telefonemas  e, sem ambos perceberem, crescia a vontade de se encontrarem.
Podia ser pecado ou benção, pensavam.
Mas ambos, no presídio dos diálogos envolventes, iam criando um cenário mágico, até à realização do momento que não mais acontecia.
Já tinham esgotado os temas do senso comum. Os temas académicos. E outros.
Falavam à noite, de manhã, sempre que lhes era oportuno.
Aquilo que os unia, para além da linha telefónica, já não era apenas uma brincadeira.
Amizade ou gozo insensato de ter um namoro virtual, poder-se-ia dizer.
O tempo passava velozmente.
Estavam , assim, reunidos todos os ingredientes para o grande momento.
Um belo dia, numa cidade cosmopolita de um país qualquer, encontraram-se!
Não existia amor.
Apenas curiosidade, transformada em pedaços de paixão.
Posse, numa noite que não aconteceu.
Beijaram-se.
Viveram longamente a realidade de um sonho, que afinal não era deles.
Os dois, curvados sobre si próprios,  riram da euforia do desejo.
Do sopro da paixão.
Do corpo inerte, que nada queria.
Caminharam, por fim.
Frente ao mar, esgotaram palavras loucas.
Na sensualidade da maresia , cantaram uma nova razão de existir.
Nas rochas, esculpiram a sensatez perdida na fantasia.
Nos limos, procuraram a realidade.
Na areia, enterraram uma noite anómala de encantamento.
Até hoje!



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A casa ...

.. da vizinha Ermelinda!

Ruínas  contíguas à casa de minha mãe.
Ali, nascimento e morte, alegria e desgosto, confusão e paz, se viveram durante muitos anos.
O ambiente era rural, grotesco, humilde mas agradável.
Espelhado num espaço exíguo que lhes era conferido.
O marido da vizinha Ermelinda era o " gago ", de alcunha  tão fortemente arreigada que me fez esquecer sua graça!
Trabalhava o campo bem, e fazia filhos ainda melhor.
Todos sãos , escorreitos, bonitos,  simpáticos e pobres.
Lurdes, Augusta, Maria José e Alice, esta última , de quem eu era muito amiga.
Apesar dos muitos pretendentes, entitulava-se uma solteirona por vocação.
Mas a vida trocou-lhe as voltas.
Modificou-lhe a convicção.
Acabou por casar tarde e morrer cedo.
Não gozou, por muito tempo, as carícias do homem que a amou e lhe construiu à porta do ventre, um filho, que ainda viu crescer até à idade adolescente.
Mais tarde, esteve emigrada em França, para compôr pecúlio e poder restaurar a pequena casa que a viu nascer, crescer, casar e morrer.
Triste ilusão a da Alice!
Morreu, sem mais aquelas.
Foi, ao que na altura se dizia, um ar que lhe deu!
Não chegou a ver o seu sonho realizado e os seus descendentes, deixaram a casa entregue à sorte dos gatos vadios, alimentados pela vizinhança.
Quase nada tem resistido ao tempo.
Apenas a hera, infestante, sobe na parede da casa, pertença da vizinha Ermelinda e de minha mãe.
Do " gago ", da Alice e suas irmãs, da vizinha e sua bonomia, apenas resta a lembrança de um sonho de menina.
Com pedaços de ilusão, pedras feitas pó, madeiros carcomidos, ratos bajulando  passantes, da janela sussuram-me um segredo.
O amor só é eterno, quando diluído na saudade!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Aquele olhar!

Ausente de mim
Olho o mar
O sol escaldante
Acorda meu sorriso
Feito de prece
À espera de possuir
Um pensamento de ti

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Declaração

Amo-te
Como se fosses pertença minha

Gabo-te
Como se fosses uma pérola única

Guardo-te
Como se fosses o meu principal segredo

No meu coração
Como se o meu corpo fosse um castelo sitiado
E dele não pudesses fugir

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Lamento

Afogo meus ais
Na água poluída
De um poço profundo
Onde não entra
Clorofila
Nem homem ou prazer
Só a compaixão
Para autenticar
Meus pecados

domingo, 29 de outubro de 2017

Oeste

Jovens e Peras

Subindo de árvore em árvore
Comendo à sombra mal plantada de um qualquer pomar
Bebendo água morna de um qualquer receptáculo mal lavado
Mãos  braços e pernas repletos de arranhões taciturnos
Que mal chegam a ser desenhos

Assim se fazem oito ou mais horas de trabalho mal pago
Com uma geração nova e intelectual
Num Oeste caduco e desertificado
Onde a vida e a morte acontecem
Sem sintoma nem sobressalto